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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

TEMPO DE ALHEIRAS



Toda a gente fala e opina sobre alheiras, mas nem todos lhe conhecem a essência, ou pelo menos a alma. E cada produto é produto de quem o fabrica, como dizia o celebérrimo Abade de Priscos ao Arcebispo de Braga. Ora, as alheiras não são bem um produto, mas um conjunto de produtos e sem bons
produtos, não se pode fazer boas alheiras.

As alheiras são um enchido tradicional fumado, cujos principais ingredientes são a carne e gordura de porco, a carne de aves (galinha e/ou peru), o pão de trigo, o azeite, condimentados com sal, alho e colorau doce e/ou picante.
Podem também ser usados como ingredientes a carne de animais de caça, a carne de vaca e o salpicão e/ou o presunto envelhecidos.

Com formato de ferradura, cilíndrico, o interior é constituído por uma pasta fina na qual se apercebem pedaços de carne desfiadas e cujo invólucro é constituído por tripa natural, geralmente de vaca.



Diz-se que a origem da alheira remonta aos fins do século XV e princípios do século XVI e está associada à presença dos judeus em Trás-os-Montes. Por não comerem carne de porco, os judeus não faziam nem fumavam os enchidos, sendo assim facilmente identificáveis pela Inquisição. Decidiram assim pegar noutros tipos de carnes e envolvê-las numa massa de pão para criar a alheira.
A receita acabou por se popularizar entre os cristãos, que lhe acrescentaram a carne de porco.

A ideia de associar o aparecimento da alheira aos judeus fixados próximo da zona raiana, para facilmente fugirem para Espanha, parece querer justificar a prática da alheira mais ajustada à terra fria transmontana.

Durante os finais do século XV e princípios do século XVI, ser-lhes-ia permitido atravessar as fronteiras em sentido da perseguição de que seriam alvo, tendo as coroas, portuguesa e espanhola, tolerado as infiltrações, pois os judeus eram trabalhadores, detentores de fortuna e comerciantes necessários.

Assim, a suposta ligação da alheira com os cristãos novos talvez não passe de uma ideia romântica popular, pois não há factos concludentes que a suportem. Parece mais certo que o seu aparecimento esteja ligado ao próprio ciclo de produção de fumeiros caseiros, ou simplesmente à necessidade de
conservação das carnes dos diversos animais criados para consumo próprio.

Segundo Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, a necessidade ajuda ao engenho, e fruto da perseguição que eram permanentemente alvo pela Inquisição, os judeus, "...não podendo estes comer carne de porco por imposição da sua fé, imaginaram um enchido, que, embora semelhante aos enchidos que por essa época eram o prato forte das gentes, não levasse a carne proibida."

O Abade de Baçal também se refere às alheiras, sempre associadas à matança e como um enchido de carnes. Para a Exposição Portuguesa em Sevilha em 1929, na brochura escrita sobre Trás-os-Montes, refere que em Bragança "se notabilizam como pitéus regionais deliciosos, de fama geral em todo o País tabafeias, fabricadas desde Outubro a Fevereiro..."

José Leite de Vasconcelos, na sua Etnografia Portuguesa, referencia a alheira no capítulo dos alimentos de origem animal e como enchido de porco. Na sua perspetiva as alheiras também eram chamadas de "Tabafeiras". 

A alheira é, hoje, um dos mais afamados ex-libris transmontanos, sendo as mais afamadas as de Mirandela, tendo sido nomeada uma das 7 Maravilhas da Gastronomia de Portugal. No entanto, por toda a região de Trás-os-Montes se fazem alheiras artesanais de excelente qualidade.

Em Trás-os-Montes a alheira é consumida grelhada, ou assada em lume brando, acompanhada por batata cozida com um fio de azeite, e legumes da época variados. Mais a sul o mais natural é encontrar os menus com a alheira frita, batatas fritas, ovo estrelado e saladas de alface e tomate. Por vezes, é também acompanhada por grelos de couve. É uma presença habitual nas ementas dos restaurantes de todo o país.

“Em Fevereiro chega-te ao fumeiro” - Provérbio popular
Sugestões de Confeção

Visite o site http://pt.petitchef.com/tags/recettes/alheira-page-

para mais receitas sobre como confeccionar alheiras.
Bibliografia:

topiteu.blogspot.com/p/origem-da-alheira.html
www.infopedia.pt/

Maria Fernanda Lopes, Fevereiro 2015

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

UMA ESPÉCIE DE CONTO


Lembro-me bem de ler a história do Capuchinho Vermelho e ficar impressionada com o facto do lobo-mau comer a avozinha. Não gostava nada disso. Por outro lado, ficava encantada com a sorte que o Capuchinho tinha de poder ir sozinha a casa da avó. Isso é que deve ser muito bom - pensava eu. E imaginava-me a percorrer as ruas - eu morava na cidade - , ter atenção aos  carros, não falar com ninguém, ver o Tejo mesmo ali à minha beira... quem me dera ser o Capuchinho Vermelho.
E sonhava com a história mas, na minha mente, nunca apareceu um bosque. O que seria um bosque? Muitas árvores? Sítio de muitos bichos (tenho horror às cobras)? Praça com árvores e prédios? Sabia que tinha que haver árvores mas, como seria realmente?
Em S. Pedro do Sul encontrei, finalmente, o bosque. Porém, não havia Capuchinho nem lobo-mau,
Lembro-me bem de ler a história do Capuchinho Vermelho e ficar impressionada com o facto do lobo-mau comer a avozinha. Não gostava nada disso. Por outro lado, ficava encantada com a sorte que o Capuchinho tinha de poder ir sozinha a casa da avó. Isso é que deve ser mto bom - pensava eu. E imaginava-me a percorrer as ruas - eu morava na cidade - , ter atenção aos  carros, não falar com ninguém, ver o Tejo mesmo ali à minha beira... quem me dera ser o Capuchinho Vermelho.
E sonhava com a história mas, na minha mente, nunca apareceu um bosque. O que seria um bosque? Muitas árvores? Sítio de muitos bichos (tenho horror às cobras)? Praça com árvores e prédios? Sabia que tinha que haver árvores mas, como seria realmente?
Em S. Pedro do Sul encontrei, finalmente, o bosque. Porém, não havia Capuchinho nem lobo-mau!

Texto e fotografia: Maria da Glória Chagas

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

CONVENTO DOS CARDAES


8 de Fevereiro de 1714! Não esquecerei nunca aquele dia! A minha entrada no Convento dos Cardais! Nem Nossa Senhora da Conceição que sempre foi a minha protectora, e que ali estava no altar lindíssimo da igreja, me ajudou, me deu força e alento para suportar esta passagem.
Deixar para trás a casa dos meus pais – o conforto, a ternura, a cumplicidade com as minhas irmãs, o convívio alegre, os passeios, as festas. Pensar que não mais verei aqueles olhos negros, profundos e doces que procuravam ler nos meus, os sentimentos, o estado de espírito, o apelo da carne, que ardia silenciosamente no meu âmago.
Tudo mudou. O meu nome passou a ser Teodora de Jesus Maria José. Os meus vestidos foram trocados pelo hábito, igual ao de todas as outras religiosas da instituição. Os meus pés passaram a ter um estado crónico – gelados. A minha rotina passou a ser oração, oração, oração.
Revoltada, eu? Sim, a princípio, sem dúvida. Então quando me faziam reparar nos painéis de azulejo holandês da igreja e queriam que eu meditasse na vida de Santa Teresa de Ávila, as minhas entranhas viravam-se ao contrário. Levitar em comunhão com Cristo, etérea, aérea! Eu não sou ar, sou fogo! A minha alma, o meu coração, o meu corpo ardem de desejo por aquele homem! Proibido, eu sei. Essa interdição é que me trouxe para aqui! E só à noite, na escuridão da minha cela, eu sonho, eu fantasio, eu viajo para fora daqui e me recolho nos seus braços. E as quatro paredes estreitas do meu quarto alargam-se e eu imagino-me dona da minha casa, com um homem amante aos meus pés. Na minha imaginação até o céu pode estar azul e os jardins floridos. O meu mundo interior! Nele encontro conforto.
- Irmã Teodora! Tão calada e sossegada! Mas tão séria, tão triste! Quero ver um sorriso nesses olhos. Deus Nosso Senhor deu-nos a graça da vista. E olhe, irmã, não vemos nós, à nossa volta, essas mulheres de todas as idades atingidas pela cegueira? Animai-vos. Vinde comigo.
Aquela irmã Ana conseguia ser tão despojada das coisas do Mundo! E o seu amor ao próximo, a sua preocupação com os outros, com todos os que sofrem (e até comigo que tento aparentar tranquilidade) era tão genuíno. O seu tom de voz e as suas palavras traziam paz!
Naquele dia levou-me até à cozinha, onde a irmã Benedita, à volta com os doces e compotas, experimentava ter sucesso com uma nova receita de ovos e limão.
- Posso ajudar? – perguntei.
A partir de então, comecei a encafuar nos frascos de geleia as minhas angústias. Enrosco bem a tampa para de lá não saírem. E nestes afazeres manuais descarrego parte da minha tensão e da minha revolta.
O tempo passa devagar, mas põe tudo no lugar!

 Texto;Ana Amorim
Lisboa, 8 de Fevereiro de 2014
Imagens:Internet

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CONVERSAS DE OUVIDO


Por motivos de problemas de visão, não conduzo e, viajo bastante nos transportes públicos. Como ando sozinha dou atenção ao que se passa à minha volta. Resolvi escrever alguns episódios engraçados  que intitulei CONVERSAS  DE  OUVIDO. Esta pequena história passou-se numa viagem entre Sesimbra e Lisboa.

Mandou parar a camioneta. Perguntou:
- Vai para o Areeiro?
- Não. Esta vai para a Praça de Espanha.
- Mas, eu quero ir para o Areeiro.
O motorista – estrangeiro – não sabia informar.
A senhora, que ia sentada no 1º banco, inclinou a cabeça e disse:
- Vá até à Praça de Espanha e depois apanha o Metro para o Areeiro.
- Eu não sei andar no Metro. Quero ir para Cacilhas.
- Só às 4h (eram 12,45h) – respondeu o motorista.
A senhora do 1º banco insistiu.
-Suba. Venha. Desce nas portagens e aí apanha uma camioneta para o Areeiro.
- Mas eu não sei ir para essa paragem.
E a camioneta parada na berma da estrada.
- Venha que eu ensino-a.
A senhora entrou e sentou-se. Deu uma nota de 5 Euros e recebeu umas moeditas.
- O bilhete é caro! – comentou.
E começou uma amena conversa som a senhora do 1º banco. Ia ao médico. Ela sabia o caminho se fosse por Cacilhas. Mas, assim…. Ia aprender um caminho novo. Sim, porque ela já tinha 80 anos.
- Não parece. Está muito bem conservada – adiantou a senhora do 1º banco.
- São os seus bons olhos a falar.
E continuou. Estava viúva desde há nove meses. O marido tinha falecido no dia em que fizeram 56 anos de casados. Tinha dois filhos: um que foi muito mau e lhe deu muitos, muitos problemas. Estava no Canadá e já tinha uma menina com 12 anos. O outro era bonzinho mas, há cinco anos que não lhe falava e nem tinha ido ao funeral do pai.
- E dizia eu que era bonzinho. Valha-me Deus!
Mas ela adoeceu muito. E a médica quis falar com os filhos. Veio o do Canadá. Quando soube do estado da mãe, ficou cá e não a deixou mais. Ela precisa de ser operada ao coração. Mas este ministro não dá dinheiro aos hospitais. A prótese, que ela tanto precisa, tem que ser em 2ª mão.
- Se calhar vão tirar de algum morto. Já viu?
- Pode ser que seja de um rapazinho novo e jeitoso – respondeu a senhora do 1º banco.
E riram-se as duas. Mas o filho – o que era bonzinho enviou-lhe uma carta de intimação – ao fim de seis meses do pai morto – a reclamar a herança.
A camioneta chegou às portagens. Ela saiu.
Disse muitos adeus.
E ficou à espera que outra camioneta a levasse ao Areeiro, pelo caminho novo.

-- 

Texto: Maria da Glória Chagas

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

UM NATAL DA MINHA INFÂNCIA


Não posso pensar  no Natal,  sem fazer uma viagem aos tempos da minha infância em que o Natal era bem simples, sem correrias, sem luzes, sem confusões...
Apenas a expectativa do Nascimento do Deus Menino nos movia olhando as estrelas que O anunciavam!
A euforia do Natal centrava-se em duas coisas: fazer o presépio e esperar que o Menino Jesus descesse pela chaminé na noite de Natal.
Fazer o presépio era muito divertido, combinávamos com as amigas  e vizinhas, pegávamos  num balde e íamos para o campo à procura de musgo, e era ver quem arranjava o mais bonito... depois construíamos o presépio. A cabana era feita com  pequenos paus, pedras, bocados de cortiça e musgo. Não faltava a aldeia onde passava o rio feito com  a prata dos chocolates, as ovelhas, o pastor, a fonte, a senhora com a bilha à cabeça, o anjo... e como ritual na Sagrada Família, o Menino Jesus era o último a deitar-se nas palhinha.
Os três reis também lá estavam, mas  só  depois da noite de Natal e  todos os dias andavam um bocadinho de modo  a chegarem ao Menino no dia dos Reis Magos.
A minha família reunia-se em casa dos meus  pais em redor de uma lareira que crepitava chamas de amor  e que inundava o coração de todos,  num serão em que os doces e fritos  tradicionais faziam  obrigatoriamente parte da festa para delícia de crianças e adultos.
Na manhã do Dia de Natal era a ida à chaminé para espreitar os presentes tão desejados  e que o Menino Jesus descendo pela chaminé tinha  deixado  nos nossos sapatinhos.
À tarde após  a Missa de Natal, onde beijávamos o Menino Jesus,  percorríamos as ruas da aldeia com muita alegria, visitando todos os familiares e amigos para  admiramos os presépios  que eram autênticas obras de arte e ainda para comer os tradicionais doces de Natal.  

Era o verdadeiro Natal dos simples!

Texto e fotografia: Fernanda Lopes

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

FIM DE OUTONO EM SANTANA

E eu observando-as da janela da minha casa, verdadeiro 1º balcão de um cinema ao ar livre.

Elegantes, bamboleiam-se ao som de uma pequena brisa para se refrescarem do calor que se aproxima. Vestem-se de verde, tentando tapar os seus membros magros e elegantes.
Mais tarde - meses mais tarde – vestidas de um verde-garrafa, não deixam apreciar o seu interior. Têm calor, têm sede, resistem, ansiando por um ventinho que não chega.

E eu observando-as da janela da minha casa, verdadeiro 1º balcão de um cinema ao ar livre.

Depois, começam a ficar cansadas. As roupas ficam amareladas ou, até mesmo acastanhadas.
Chega o vento e o frio. Começam a ficar descaídas, tentando aguentar as fustigadas da ventania. Até parece que já não têm graça.
Aumenta o frio, desce a temperatura. O chão do espaço onde habitam está coberto pelos restos das suas vestes. De novo, os seus membros estão despidos.

E eu observando-as da janela da minha casa, verdadeiro 1º balcão de um cinema ao ar livre.
É daqui que assisto ao desenrolar das 4 estações, através de três lindas árvores que me fazem companhia na praceta junto ao prédio onde moro.

Texto e fotografia: Maria da Glória Chagas